Mulher com crise de enxaqueca crônica em quarto com luz baixa

Enxaqueca crônica: quando deixa de ser dor de cabeça e vira caso de neurologista

Enxaqueca crônica: quando deixa de ser dor de cabeça e vira caso de neurologista

Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui consulta médica presencial.

Resumo rápido (TL;DR):

  • Enxaqueca afeta cerca de 15-20% da população mundial — bem mais comum do que se pensa.
  • É tipicamente unilateral, pulsátil, moderada/intensa, com náusea e sensibilidade à luz/som.
  • Enxaqueca crônica = mais de 15 dias de dor por mês, por mais de 3 meses.
  • Não normalize dores frequentes — quanto antes tratar, melhor a resposta.
  • Tratamento moderno é muito eficaz — incluindo anti-CGRP (injeção mensal) e botox.
  • Sinais de alerta (dor súbita “trovão”, febre, déficit neurológico) → pronto-atendimento imediato.

A real sobre enxaqueca — não é “só dor de cabeça”

Diário de enxaqueca, medicação genérica e máscara de dormir em mesa de cabeceira

Enxaqueca é doença neurológica primária — tem **base neurobiológica

clara**, com alterações em vasos sanguíneos cerebrais, neurotransmissores

(serotonina, CGRP, glutamato) e excitabilidade cortical.

Neurologista explicando exames de crânio a paciente com enxaqueca em Campinas

Não é “frescura”, não é “estresse”, não é “falta de sono”. Tem **genética

forte** (até 70% de hereditariedade) e o cérebro de quem tem enxaqueca é

diferente — mais sensível a estímulos, mais propenso a disparar a cascata

inflamatória que gera a dor.

Quem tem:

  • 3x mais comum em mulheres (relação com flutuação hormonal)
  • Pico entre 20 e 50 anos
  • Frequência aumenta na perimenopausa e geralmente reduz na menopausa
  • 15-20% da população tem em algum momento da vida

E o impacto não é trivial:

  • Enxaqueca é a 2ª causa de incapacidade entre 15-49 anos (OMS)
  • Custo econômico no Brasil em torno de R$ 10-15 bi/ano (absenteísmo, queda de produtividade)
  • Maior risco de AVC, depressão, ansiedade

Os tipos — não é tudo igual

1. Enxaqueca sem aura (a mais comum, 70-80%)

  • Dor pulsátil, geralmente unilateral (mas pode ser bilateral)
  • Moderada a intensa
  • Náusea, vômito
  • Foto e fonofobia (luz e som incomodam muito)
  • Piora com atividade física
  • Dura 4 a 72 horas se não tratada

2. Enxaqueca com aura (15-25%)

Antes da dor, vem um sintoma neurológico transitório (5-60 min):

  • Visual — pontos brilhantes, escotomas, linhas em zigue-zague (o mais comum)
  • Sensorial — formigamento começando em mão, subindo pra braço, face
  • Fala — dificuldade momentânea pra encontrar palavras
  • Motora (raro, em enxaqueca hemiplégica)

Importante: aura pode acontecer SEM dor depois (“enxaqueca silenciosa”) —

isso costuma confundir.

3. Enxaqueca crônica

15+ dias de dor de cabeça por mês, sendo pelo menos 8 com características

de enxaqueca, por mais de 3 meses. Frequentemente evolui da forma episódica

sem tratamento adequado.

4. Outros subtipos

  • Enxaqueca menstrual — relacionada à queda de estrogênio
  • Enxaqueca vestibular — com tontura intensa
  • Enxaqueca hemiplégica — com fraqueza unilateral (rara, hereditária)
  • Cluster headache (não é enxaqueca tecnicamente) — dor extrema unilateral,

em “salvas”, olho lacrimejando, durante semanas/meses, depois para


Os gatilhos — o que vc deve mapear

Cada pessoa tem gatilhos individuais. Os mais comuns:

Alimentares

  • Álcool (especialmente vinho tinto)
  • Queijos envelhecidos (tiramina)
  • Chocolate
  • Embutidos (nitratos)
  • Glutamato monossódico (comida chinesa, salgadinhos)
  • Aspartame
  • Cafeína em excesso OU abstinência de cafeína
  • Jejum prolongado

Hormonais

  • Período pré-menstrual (queda de estrogênio)
  • Anticoncepcional combinado (atenção: pode aumentar risco AVC se houver aura)
  • Gravidez (geralmente melhora no 2º-3º trimestre)
  • Menopausa (transição costuma piorar antes de melhorar)

Ambientais / fisiológicos

  • Estresse (e o “alívio” pós-estresse — final de semana, férias)
  • Sono — pouco OU em excesso
  • Luminosidade intensa (sol, telas)
  • Cheiros fortes (perfume, gasolina, cigarro)
  • Mudanças climáticas (variação de pressão)
  • Atividade física intensa súbita
  • Desidratação

Manter um diário de enxaqueca por 1-3 meses ajuda a identificar SEUS

gatilhos específicos. Apps como Migraine Buddy, Headache Diary funcionam bem.


Os sinais de alerta — quando NÃO é “só enxaqueca”

Algumas dores de cabeça exigem avaliação imediata porque podem indicar

condição grave:

🚨 SINAIS DE ALERTA — pronto-socorro

  • Cefaleia tipo “trovão” — dor súbita, máxima em menos de 1 minuto (pode ser

hemorragia subaracnóide)

  • Dor de cabeça com febre + rigidez de nuca (meningite)
  • Dor de cabeça com déficit neurológico (fraqueza, fala enrolada, perda de

visão)

  • Dor que piora muito com tosse, esforço, ato sexual (pode ser tumor,

malformação)

  • Primeira enxaqueca após 50 anos
  • Mudança brusca do padrão habitual (mais frequente, mais intensa, em outro lado)
  • Dor de cabeça em paciente imunossuprimido (HIV, quimio)
  • Dor de cabeça após trauma craniano
  • Convulsão durante a dor

Nesses casos: não medique e não espere. Vá ao pronto-socorro.

⚠️ Sinais pra agendar consulta médica logo

  • Frequência aumentando (mais de 4 crises por mês)
  • Uso de analgésico/triptano mais de 10 dias por mês
  • Crises piorando em intensidade
  • Aura nova ou aura sem dor
  • Dor que acorda à noite
  • Resposta insuficiente ao tratamento atual

Como tratar — duas frentes simultâneas

O tratamento moderno se divide em duas frentes que andam juntas:

1. Tratamento da CRISE (quando a dor aparece)

Linha 1 — Analgésicos comuns:

  • Dipirona, paracetamol — pra crises leves
  • Anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno, cetoprofeno) — moderadas
  • Sempre na FASE INICIAL da crise (não esperar piorar)

Linha 2 — Triptanos (específicos pra enxaqueca):

  • Sumatriptano (Sumax, Imigran), naratriptano, eletriptano (Relpax),

rizatriptano (Maxalt), zolmitriptano

  • Funcionam em 60-70% dos casos
  • Não viciam, mas têm contraindicações cardiovasculares
  • Atenção: uso mais de 10 dias/mês pode causar cefaleia por abuso

Linha 3 — Gepantos (anti-CGRP via oral, novos):

  • Ubrogepant, rimegepant
  • Eficácia comparável ao triptano, sem contraindicação vascular
  • Disponíveis no Brasil mas custo alto

Adjuvantes:

  • Antieméticos (metoclopramida, ondansetrona)
  • Hidratação
  • Ambiente escuro e silencioso

2. Tratamento PREVENTIVO (uso diário, evita as crises)

Indicado quando há:

  • 4+ crises por mês
  • Crises incapacitantes
  • Uso excessivo de analgésico
  • Falha de tratamento agudo

Opções:

| Classe | Exemplos | Bom para |
|—|—|—|
| **Beta-bloqueadores** | Propranolol, metoprolol | Pacientes com hipertensão, ansiedade |
| **Antidepressivos tricíclicos** | Amitriptilina, nortriptilina | Pacientes com insônia, fibromialgia |
| **Antiepilépticos** | Topiramato, valproato | Pacientes obesos (topiramato emagrece) |
| **Bloqueadores de cálcio** | Flunarizina, verapamil | Enxaqueca com vertigem |
| **Anti-CGRP (injetável)** | Erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe | Enxaqueca crônica refratária |
| **Toxina botulínica** | Botox | Enxaqueca crônica |

Tempo de uso: geralmente 6-12 meses depois de boa resposta, com retirada gradual.

Estratégias não-farmacológicas (sempre junto)

  • Sono regular — mesmo horário todo dia
  • Hidratação — 2-3L de água/dia
  • Refeições regulares — não pular
  • Atividade física aeróbica — 30 min, 3-5x/semana
  • Reduzir cafeína se uso excessivo
  • Mindfulness, ioga — evidência razoável
  • Acupuntura — pode ajudar (algumas pesquisas positivas)
  • Riboflavina (vitamina B2) 400 mg/dia — evidência fraca mas barato
  • Magnésio — pode ajudar, especialmente enxaqueca menstrual
  • CoQ10 — evidência fraca

Quando o clínico resolve, quando o neuro entra

Clínico geral pode tratar:

  • Enxaqueca episódica simples (até 4-5 crises/mês)
  • Sem sinais de alerta
  • Resposta boa a triptano e/ou preventivo de 1ª linha
  • Pacientes jovens, sem outras doenças neurológicas

Neurologista deve avaliar:

  • Enxaqueca crônica (15+ dias/mês)
  • Sinais de alerta presentes
  • Falha de 2 preventivos ou mais
  • Aura nova ou complexa
  • Mudança de padrão importante
  • Indicação de anti-CGRP ou botox
  • Suspeita de causa secundária (tumor, trombose, hipertensão intracraniana)

Exames quando solicitados pelo médico:

  • Ressonância magnética de crânio — quando há suspeita de causa secundária,

aura atípica, sinais de alerta

  • Angio-RM — em suspeita de aneurisma, trombose
  • TC de crânio — emergência (quando RM não disponível)
  • Exames laboratoriais — função renal, hepática, glicemia (antes de

iniciar preventivos)

A **maioria dos pacientes com enxaqueca típica não precisa de exame de

imagem** — diagnóstico é clínico.


A armadilha da cefaleia por abuso de medicação (MOH)

Esse é um problema gigante e mal entendido:

Cefaleia por abuso de medicação (Medication Overuse Headache) ocorre

quando o uso EXCESSIVO de analgésico pra dor de cabeça **causa MAIS dor

de cabeça**. Critério: uso >= 10 dias/mês de triptano OU >= 15 dias/mês de

analgésico simples, por > 3 meses.

O que acontece:

  • O cérebro se torna “viciado” no remédio
  • Dor de cabeça aparece quando o nível do remédio cai
  • Pessoa toma mais → mais dor → mais remédio (ciclo)

Sinal: dor de cabeça todos os dias ou quase, especialmente matinal,

em pessoa que toma analgésico/triptano com frequência.

Tratamento: suspensão do remédio causal (com apoio médico, porque tem dias

de piora antes de melhorar) + introdução de preventivo + estratégias

adjuvantes.

Por isso, uso de triptano deve ser pontual — máximo 8-10 dias/mês.

Se vc tá usando mais, é sinal pra tratamento preventivo.


Convivendo com enxaqueca crônica

Pra quem tem enxaqueca crônica de longa data, algumas estratégias práticas:

  • Plano de crise definido com médico — o que tomar, quando, como
  • Estoque básico em casa, bolsa, trabalho
  • Trabalhe sua “janela de tolerância” — identifique sinais precoces
  • Avise pessoas próximas — não é “frescura”, afetar relacionamentos
  • Atestado quando necessário — enxaqueca é doença reconhecida pra

afastamento

  • Apoio em grupo — comunidades online de enxaquecosos ajudam muito
  • Tratamento psicológico — depressão e ansiedade são comuns em

enxaqueca crônica

  • Não compare sua enxaqueca com dor de cabeça de outra pessoa

Por que escolher a Clínica Para Família

A Clínica Para Família atende **clínico geral em Campinas sem

mensalidade**, em 3 unidades no Centro. O modelo pra enxaqueca:

  • Avaliação inicial e descarte de bandeiras vermelhas
  • Tratamento da crise + tentativa de preventivo de 1ª linha
  • Encaminhamento pra neurologista nos casos complexos
  • Receitas e atestados quando necessário
  • Agendamento por WhatsApp com vaga em poucos dias

A clínica não faz aplicação de botox ou anti-CGRP injetável — esses ficam

em neurologistas especializados. Mas resolve grande parte das enxaquecas

simples a moderadas.


Para fechar — uma orientação simples

Se vc:

  • Tem dor de cabeça mais de 4-5x por mês
  • Toma analgésico/triptano mais de 10 dias por mês
  • Já mudou de remédio 2-3 vezes sem melhora consistente
  • A enxaqueca está piorando com o tempo
  • A dor está afetando trabalho, sono ou relacionamentos

…é hora de buscar avaliação médica. Enxaqueca tem tratamento moderno e

eficaz — algo impensável há 10 anos. Os anti-CGRP, em particular, são

revolucionários pra quem nunca respondeu ao tratamento tradicional.

Não normalize a dor. Não viva à base de analgésico. Marque uma consulta.


*Conteúdo revisado em maio de 2026 pela equipe médica da Clínica Para Família —

3 unidades em Campinas-SP. Diretrizes baseadas em SBCe (Sociedade Brasileira

de Cefaleia) 2026, AHS (American Headache Society) 2026 e ICHD-3

(International Classification of Headache Disorders).*

Responsável Técnico: Dr. Nasser Hamze · CRM-SP 155.312 — Clínica Para Família

Responsável Técnico: Dr. Nasser Hamze · CRM-SP 155.312 · Clínica Para Família · 3 unidades na Av. Francisco Glicério, Centro Campinas (nº 501, 640 e 670)