Síndrome do Pânico: o que fazer durante a crise (e como começa o tratamento)
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui consulta médica presencial.
Resumo rápido (TL;DR):
- Crise de pânico = episódio agudo de medo extremo com sintomas físicos intensos (taquicardia, falta de ar, tremor, dor no peito), durando 10-30 min.
- Transtorno de Pânico = quadro clínico com crises recorrentes + medo de novas crises + impacto no funcionamento.
- Não mata, mas é uma das experiências mais aterrorizantes que existem.
- Primeira crise SEMPRE merece ida ao PS pra descartar infarto.
- Durante a crise: respiração lenta, ancoragem, não fugir, esperar passar (5-30 min).
- Tratamento funciona: TCC + medicação (ISRSs) em 70-80% dos casos.
A real sobre o pânico

Pânico não é “frescura”, “frescurice” nem “drama emocional”. É um quadro médico
com base neurobiológica clara — disfunção do sistema de alarme do cérebro
(amígdala, locus coeruleus, eixo HPA) que dispara reação de “luta ou fuga” SEM

ameaça real.
A pessoa em crise vive, fisiologicamente, a mesma reação que viveria
fugindo de um leão. Só que sem leão. O corpo não diferencia perigo real de
falso alarme — só responde.
Daí os sintomas físicos serem reais e intensos:
- Taquicardia (coração disparado)
- Palpitação (“coração no pescoço”)
- Falta de ar ou sensação de sufocamento
- Dor ou aperto no peito
- Tontura, sensação de desmaio
- Formigamento em mãos, pés, em volta da boca
- Suor frio, tremores
- Calor súbito ou calafrios
- Náusea, dor de barriga
- Sensação de irrealidade (despersonalização, desrealização)
- Medo de morrer, enlouquecer ou perder o controle
Quem nunca viveu não imagina o que é. Quem já viveu nunca esquece.
Crise de pânico vs Transtorno de Pânico — não é a mesma coisa
Crise de pânico
Um episódio isolado — pode acontecer com QUALQUER pessoa em momentos
estressantes. Não significa que vc tem o transtorno.
- Estudos mostram que até 11% da população terá pelo menos 1 crise na vida
- Não exige tratamento se for episódio isolado e não recorrente
Transtorno de Pânico (CID-11)
Critérios:
- Crises recorrentes e inesperadas (sem gatilho claro)
- Pelo menos uma crise seguida por 1 mês ou mais de:
- Preocupação persistente com novas crises
- Mudança importante de comportamento (evitar lugares, sempre andar com remédio)
- Sintomas não são explicados por outra condição médica ou outro transtorno mental
Atinge 2-3% da população adulta, mais comum em mulheres (relação 2:1).
Início típico: 15-35 anos.
Agorafobia (frequentemente associada)
Em até 30% dos casos, o pânico vem com agorafobia — medo de lugares
onde a saída seria difícil ou onde ajuda não estaria disponível:
- Transporte público
- Multidões
- Espaços abertos ou fechados
- Sair de casa sozinho
Em casos graves, a pessoa fica literalmente presa em casa por meses.
Por que a primeira crise dá tanto medo
A primeira vez é sempre traumática. Os sintomas são tão intensos que
99% das pessoas pensam que estão tendo um infarto ou um AVC. Vão pro PS,
fazem ECG, exames de sangue, raio-X — tudo normal. Recebem alta com
“foi ansiedade” e geralmente saem mais confusos do que entraram.
O problema: depois da primeira crise, a pessoa vive com medo da próxima.
Esse medo é a “cola” que mantém o transtorno. Quanto mais medo, mais
hiperatividade do sistema de alarme, mais provável de outra crise. Vira ciclo.
Por isso o tratamento começa cedo importa muito. Pegar logo na 2ª-3ª
crise tem prognóstico muito melhor do que pegar após 1-2 anos de pânico
estabelecido.
O que fazer DURANTE uma crise — protocolo prático
Esses passos funcionam tanto pra primeira crise quanto pra recorrentes. Mas
se for a primeira, vá pro PS depois pra confirmar que não é cardíaco.
Os 6 passos
1. Nomeie a experiência
- “Isto é uma crise de pânico”
- “Vai durar 10-30 minutos”
- “Não vou morrer, não vou enlouquecer”
- “Já passei por isso (ou já vi outras pessoas passar)”
2. Respiração lenta (3-5 minutos)
- 4 segundos inspirando pelo nariz
- 4 segundos segurando o ar
- 6 segundos expirando pela boca, lentamente
- Repetir por 10-15 ciclos
Essa técnica corrige a hiperventilação (causa do formigamento e tontura)
e ativa o sistema parassimpático (o “freio” do corpo).
3. Ancoragem sensorial 5-4-3-2-1
- 5 coisas que vejo ao redor (paredes, móveis, pessoas)
- 4 coisas que ouço (carro lá fora, ventilador, sua própria voz)
- 3 coisas que toco (chão sob os pés, parede, roupa)
- 2 coisas que cheiro (perfume, ar, café)
- 1 coisa que sinto o sabor (saliva, gosto na boca)
Esse exercício tira o foco do corpo interno (sintomas) e leva para o
ambiente externo. Funciona muito bem em pico de crise.
4. NÃO fuja do local
Fugir do lugar onde a crise começou REFORÇA o medo no futuro — o cérebro
aprende que aquele lugar é “perigoso”. Se for seguro, permaneça e espere
a crise passar.
5. Movimente o corpo
Atividade física moderada (caminhar, agachar 10 vezes, subir escada) **queima
a adrenalina** circulante. Ajuda a encurtar a crise.
6. Use o “remédio de resgate” se tiver prescrito
- Clonazepam sublingual (Rivotril, alguns genéricos): age em 15-30 minutos
- Alprazolam sublingual (Frontal): age um pouco mais rápido
- NUNCA tome sem prescrição prévia — esses são controlados, têm risco de
dependência, e em geral só são prescritos pra primeiras semanas de
tratamento
Importante: resgate é exceção, não regra. O objetivo é aprender a passar
a crise SEM medicação aguda, porque depender de pílula reforça o medo. Use
só quando for muito ruim.
A regra de ouro: investigue o físico primeiro
Sempre, em qualquer crise nova ou em padrão diferente:
- Vá ao pronto-atendimento pra descartar causa cardíaca, neurológica ou pulmonar
- ECG é obrigatório
- Exames laboratoriais básicos (hemograma, TSH, glicemia, eletrólitos, troponina se indicado)
- Em casos selecionados: Holter, ecocardiograma, espirometria, raio-X
Somente após exames normais + padrão clínico compatível com pânico → diagnóstico
psiquiátrico. Não pule essa etapa.
Razão: existem casos reais de:
- Infarto em jovens (raro mas existe)
- Embolia pulmonar
- Arritmias paroxísticas (taquicardia supraventricular, FA paroxística)
- Hipertireoidismo
- Feocromocitoma (tumor raro de adrenal que mimetiza pânico)
- Hipoglicemia
- Uso de drogas estimulantes
Investigar custa pouco. Não investigar pode custar muito.
O tratamento — o que realmente funciona
1. Psicoterapia (primeira linha em casos leves)
TCC pra pânico tem a melhor evidência científica. Foca em:
- Psicoeducação — entender o que é pânico reduz o medo
- Exposição interoceptiva — provocar voluntariamente sintomas físicos
(hiperventilar, girar, esforço) em ambiente controlado pra “des-condicionar”
o medo dos sintomas
- Exposição in vivo — se há agorafobia, gradativamente voltar aos lugares
evitados
- Reestruturação cognitiva — mudar pensamentos catastróficos (“vou morrer”)
por realistas (“é pânico, vai passar”)
Frequência: 1x/semana, 12-20 sessões em casos típicos.
Outras abordagens com evidência: Mindfulness, ACT, Terapia do Esquema
em casos crônicos.
2. Medicação
Primeira linha: ISRSs (inibidores seletivos de recaptação de serotonina)
- Sertralina (Zoloft, vários genéricos) — dose inicial baixa, sobe gradativo
- Escitalopram (Lexapro)
- Paroxetina (Aropax)
- Fluoxetina (Prozac)
Demoram 2-4 semanas pra fazer efeito completo. Não viciam. Uso
recomendado de 9-18 meses após melhora.
Segunda linha: IRSNs (venlafaxina, duloxetina), tricíclicos
(clomipramina, imipramina — em casos específicos)
Ansiolíticos benzodiazepínicos (clonazepam, alprazolam):
- Usados só no início do tratamento, enquanto ISRS faz efeito
- Risco de dependência se uso prolongado
- Evitar uso crônico — desmamar quando ISRS estabilizar
Beta-bloqueadores (propranolol): pra sintomas físicos específicos
(taquicardia, tremor) em situações pontuais.
3. Estilo de vida
- Reduzir cafeína drasticamente (estimulante, pode disparar crises)
- Evitar álcool em excesso (efeito rebote no dia seguinte é ansiogênico)
- Atividade física aeróbica regular — efeito comparável a medicação leve
- Sono regular — 7-9 horas, mesmo horário
- Mindfulness, ioga, meditação — adjuvantes úteis
- Reduzir notícias e redes sociais ansiogênicas
A construção da recuperação
A recuperação do pânico não é linear. Geralmente segue padrão:
- Semanas 1-4 do tratamento: ainda há crises, mas vc começa a entender o que é
- Semanas 4-8: crises menos frequentes e menos intensas (ISRS começando a agir)
- Mês 3-6: crises raras ou ausentes, agorafobia reduzindo, retorno gradual às atividades
- Mês 6-18: consolidação, possibilidade de redução gradual da medicação
- Após 18+ meses: muitos pacientes ficam sem medicação, mantendo ferramentas
de manejo
Recaídas podem acontecer em momentos de estresse (luto, divórcio, mudança,
problema de saúde). Não é “fracasso” — é parte do processo. Voltar ao
tratamento por alguns meses geralmente resolve.
Quando procurar psiquiatra
Procure se:
- Teve 2 ou mais crises de pânico com características parecidas
- Está com medo persistente de novas crises
- Está evitando lugares ou situações por medo de crises
- A primeira crise foi muito recente e está preocupado(a)
- Já fez exames cardiológicos normais e o quadro persiste
- Está usando álcool ou ansiolíticos sem prescrição pra “aguentar”
Procure URGENTE se:
- Ideação suicida
- Crises muito frequentes (várias por semana) afetando trabalho/funcionamento
- Uso descontrolado de substâncias
- Outras condições mentais associadas (depressão grave, transtorno bipolar)
Linha 188 — CVV (Centro de Valorização da Vida): atendimento 24h,
gratuito, sigiloso. Em emergência psiquiátrica: 192 (SAMU), CAPS, ou PS
psiquiátrico (em Campinas: HC-Unicamp, PUCC, Hospital Mário Gatti).
Por que escolher a Clínica Para Família
A Clínica Para Família atende psiquiatria em Campinas sem mensalidade,
em 3 unidades no Centro. O modelo:
- Avaliação completa com psiquiatra (CRM-SP + RQE Psiquiatria)
- Plano terapêutico individualizado (medicação + encaminhamento pra terapia)
- Agendamento por WhatsApp com vaga em poucos dias
- Receitas e atestados quando necessário
- Atendimento humanizado, ambiente discreto
A clínica não atende emergências psiquiátricas agudas. Em crise grave
(ideação suicida, surto, agitação extrema), procure CAPS ou PS psiquiátrico.
Para fechar — uma palavra direta
Pânico é uma das condições mais invisíveis que existem. Por fora, vc parece
normal — sai pro trabalho, vai pro mercado, conversa com pessoas. Por dentro,
vive em estado de alerta permanente, com medo do próximo “infarto que não é
infarto”.
A boa notícia: não precisa ser assim pra sempre. Pânico tem tratamento
muito eficaz, e a maioria das pessoas que trata adequadamente sai do quadro.
Se vc tá lendo isso porque vive isso ou alguém próximo vive, **passe num
psiquiatra**. Não fica adiando, não fica “tentando aguentar”. Tratar é a
forma rápida de voltar a viver.
*Conteúdo revisado em maio de 2026 pela equipe médica da Clínica Para Família —
3 unidades em Campinas-SP. Em emergência: 188 (CVV), 192 (SAMU). Diretrizes
baseadas em ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) 2026, DSM-5-TR, CID-11.*
Responsável Técnico: Dr. Nasser Hamze · CRM-SP 155.312 — Clínica Para Família
Responsável Técnico: Dr. Nasser Hamze · CRM-SP 155.312 · Clínica Para Família · 3 unidades na Av. Francisco Glicério, Centro Campinas (nº 501, 640 e 670)






